quarta-feira, 31 de março de 2010

Desaniversário



Lebre: Aniversário? Há, há! Não é chá de aniversário.


Chapeleiro: Claro que não! É chá de desaniversário.

Alice: Desaniversário? Não entendo.

Lebre: Só há um dia no ano em que você comemora seu aniversário.

Chapeleiro: Portanto, os outros 364 dias são desaniversários.

Alice: Então, hoje é meu desaniversário!



Ele era como um peixinho, como um peixinho que não tinha conhecido nada além de seu castelinho sujo e pedrinhas coloridas que enfeitavam seu pequeno aquário.

Não é que ele não gostasse do lugar onde estava, ele era feliz ali. Mas ele sabia que havia um mundo muito maior a sua espera, um mundo muito melhor.
Ele não queria ser ingrato, mas há tempo o castelo não mudara, e suas pedrinhas quase não mudavam de posição. A cor da parede continuava vermelha, e o velho retrato preto e branco de um jardim possivelmente colorido continuava intacto no centro da parede.
A vontade de mudar se tornava angustiante com o passar dos dias, a vontade do novo. Mesmo não sabendo o que esse novo reservava.
Ele tinha pena de largar tudo, pois afinal, com a sua partida o castelinho se sentiria solitário. Justo ele, que esteve sempre ao seu lado, lhe protegendo nas noites barulhentas, dos dedos tortos e sujos das crianças, do gato mesclado de olhos laranja.
Partir era difícil, ainda mais quando falamos de um mundo desconhecido e geralmente sem volta. Mas às vezes, na maioria das vezes, necessário.
Porém havia o vidro, e isso realmente o encantava. O vidro lhe dava o infinito. Era como água sólida e quentinha. Era como, era como, era como... ele não sabia explicar o quanto era.
Mas ele também não podia esquecer das pedras. Tão coloridas, tão pequeninas que o faziam se sentir gigante. Às vezes, quando perdia o sono, ele pensava nelas. O seu colorido ficaria sem saturação se não fossem as pedrinhas que tonalizavam o ambiente.
E no fundo, ele até gostava da parede vermelha, e o quadro descolorado lhe dava a sensação de ser ainda mais vivo.

E então ele ficou.

terça-feira, 23 de março de 2010

Eu tinha fome, sede, medo, frio, raiva. Eu tinha raiva. Hoje eu não queria companhia, não queria sorrisos, não queria TV ligada e música no carro. Hoje eu não queria opiniões, não queria gratidão. Hoje eu não estava pra ninguém. Hoje eu não estava para mim.
Mas eu queria minha cama, e um travesseiro abafador de gritos. Eu queria almofadas para soquear até meus braços cansarem. Hoje eu queria pular no vácuo. Queria apagar as luzes, mesmo com medo de escuro.
Eu queria esquecer, esquecer quem fui, esquecer quem sou. Esquecer o mundo, a família, os amigos, meu amor. É por isso que durmo tanto – ou hiberno como diriam os mais íntimos – Bela Adormecida sem beijos para despertar, sem príncipes e cavalos brancos. Eu deito para esquecer, para acalmar os batimentos, esfriar os neurônios. Deito para me esconder da vida, dos medos, dos seres. Deito para os minutos passarem rápido, para que eu não veja o mundo girando e eu aqui, sempre no mesmo lugar.
Deito porque sou medrosa, porque me acostumei em fugir.
Então vai, continua, me congela por inteira.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Num tempo

Um
Dois
Três
Teto.
Coração
Quatro
Cinco.
Copo
Mesa
Sete.
Tarde
Oito.
Silêncio
Nove.
Nuvens
Dez
Sol
Doze
Vento
Vinte
Tinta
Trinta.
Fio
Quarenta
Atenta
A Tela
Mause
Mão
Em
Que
Numero
Parei

sexta-feira, 12 de março de 2010

(..) Você faz falta !




Eu vou ficar esperando você numa tarde cinzenta de inverno, bem no meio duma praça, então os meus braços não vão ser suficientes para abraçar você e a minha voz vai querer dizer tanta, mas tanta coisa que eu vou ficar calada um tempo enorme. só olhando você, sem dizer nada só olhando e pensando: "meu Deus, mas como você me dói de vez em quando..."

Eu quero muito muito você aqui de vez em quando nem que seja muito de vez em quando você nem precisa trazer maçãs nem perguntar se estou melhor você não precisa trazer nada só você mesmo você nem precisa dizer alguma coisa no telefone basta ligar e eu fico ouvindo o seu silêncio juro como não peço mais que o seu silêncio do outro lado da linha ou do outro lado da porta ou do outro lado do muro. mas eu preciso muito muito de você.


(Caio F. Abreu)

Não sou boa com números,

Com frases-feitas. E com morais de história. Gosto do que me tira o fôlego. Venero o improvável. Almejo o quase impossível. Meu coração é livre, mesmo amando tanto. Tenho um ritmo que me complica. Uma vontade que não passa. Uma palavra que nunca dorme. Quer um bom desafio? Experimente gostar de mim. Não sou fácil. Não coleciono inimigos. Quase nunca estou pra ninguém. Mudo de humor conforme a lua. Me irrito fácil. Me desinteresso à toa. Tenho o desassossego dentro da bolsa. E um par de asas que nunca deixo. Às vezes, quando é tarde da noite, eu viajo. E, sem saber, busco respostas que não encontro aqui. Ontem, eu perdi um sonho. E acordei chorando, logo eu que adoro sorrir. Mas não tem nada, não. Bonito mesmo é essa coisa da vida: um dia, quando menos se espera, a gente se supera. E chega mais perto de ser quem, na verdade, a gente é!

E você, porque desvia o olhar?

Porque eu tenho medo de altura. Tenho medo de cair para dentro de você. Há nos seus olhos castanhos certos desenhos que me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto, em miniatura. Então, eu desvio os meus olhos para amarrá-los em qualquer pedra no chão e me salvar do amor. Mas, hoje, não encontraram pedra. Encontraram flor. E eu me agarrei às pétalas o mais que pude, sem sequer perceber que estava plantada num desses abismos, dentro dos seus olhos.)




— Ah. Porque eu sou tímida(o).

quinta-feira, 11 de março de 2010

Antes .

A tua hipocrisia me enoja. E o meu amor que vinha desde antes de abrir meus olhos, quando ainda cabia nas tuas mãos, escorre pelos mesmos já sem nenhuma vontade de não ir. Por tua culpa sou agora fria e calculista. Por tua culpa já deixei de chorar nas noites por não achar que você valha a minha dor. mas dói... e eu já não suporto a tua presença, não gosto de olhar nos teus olhos porque não há nada que me interesse lá dentro. Dói tanto ter de acordar todos os dias e saber que vou ter alguns instantes ao teu lado cheios de desconfiança e completamente sem amor! você sabe o que é o amor? deixe que eu te conto [por mais que, um dia, deveria ter sido você a me ensinar]: amar é querer bem, zelar, adorar do jeito que é e ponto. Amar é ter orgulho das partes lindas do outro. É proteger, mas proteger de verdade, não privar de viver. É aceitar, r.e.s.p.e.i.t.a.r. e entender que as escolhas são individuais. O amor não impõe nem é egoísta. Por amor abrimos mãos de princípios – pela felicidade do ser amado. Amar é desejar a felicidade independente das condições em que o outro julgue tê-la. Ai, esquece, você jamais entenderia. Eu não vou mais perder o meu tempo com você. e faça o que quiser. Grite, soque, quebre todos os restos de vida e construa as paredes de vidro ao meu redor. Compre um banquinho acolchoado, sente e fique a me olhar ate que ambos definhemos – você pelo tempo e eu pelo asco de te olhar e pela falta de tanta vida que me esperava e pertencia.


Eu queria ainda, numa ultima esperança, pedir que olhasse para o que sou e para as tantas coisas das quais poderia se orgulhar. eu escrevo poesia e eu sei falar de amor. Eu não sei fazer contas mas conquisto com as palavras.Sabe, eu gosto de mpb e não assisto besterois americanos. E eu ainda acredito na humanidade e tenho um quê de Amelie Poulain em mim. De alguma forma, talvez ate ainda acredite em você.

Eu queria que você entendesse que felicidade e amor não têm cor, não têm sexo, não vêm rotulados numa prateleira e não podem ser formulados. Que o meu caráter independe da roupa que visto ou com que dedos prefiro entrelaçar os meus. eu queria que você se orgulhasse dos meus sonhos e da pessoa em que me torno – porque eu não vou voltar atrás e retomar a vida pacata e falsamente feliz que você gostaria que eu vivesse. Felicidade pra mim? Conhecer o mundo,sentir o cheiro de terra quando chove, estar rodeado de pessoas amáveis, fazer o melhor miojo do mundo, ver filmes europeus. Felicidade é ser o que sou em essência, e dizer o que penso e provar do que gosto. É se livrar de tabus e ter coragem de ser o que seus instintos mandam, e poder sê-lo. É ter coragem e dizer um grande foda-se aos que não tem capacidade de entender que a vida é bem além. Sabe, a vida é muito além disso!

[..]

Tire o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor!

O que se passa?

Uma coisa é saúde outra é obsessão. O mundo pirou, enlouqueceu.

Hoje, é a auto imagem.
Religião, é dieta.
Fé, só na estética.
Ritual é malhação.
Amor é cafona,
sinceridade é careta,
pudor é ridículo,
sentimento é bobagem.
Gordura é pecado mortal.
Ruga é contravenção.
Roubar pode, envelhecer, não.
Estria é caso de polícia.
Celulite é falta de educação.
Filho da puta bem sucedido é exemplo de sucesso.
A máxima moderna é uma só: pagando bem, que mal tem?

A sociedade consumidora, a que tem dinheiro, a que produz, não pensa em mais nada além da imagem, imagem, imagem. Imagem, estética, medidas, beleza. Nada mais importa.
Não importam os sentimentos, não importa a cultura, a sabedoria, o relacionamento, a amizade, a ajuda, nada mais importa. Não importa o outro, a humanidade, o coletivo. Jovens não tem mais fé, nem idealismo, nem posição política. Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada.
Ok, eu também quero me sentir bem, quero caber nas roupas, quero ficar legal, quero caminhar correr, viver muito, ter uma aparência legal mas... uma sociedade de adolescentes anoréxicas e bulímicas, de jovens lipoaspirados, turbinados, aos vinte anos não é natural. Não é, não pode ser.
D'us permita que ele volte do coma sem seqüelas. Que as pessoas discutam o assunto. Que alguém acorde. Que o mundo mude. Que eu me acalme. Que o amor sobreviva.

PS - Desulpe o desabafo, o texto em um fôlego só. Mas sabe, isso é um desabafo!

Foliã Enlouquecida


Por você, eu não me incomodaria em ficar sempre por perto, de bico fechado, me oferecendo para ventilar, vai mais um cafezinho, se for preciso limpo o chão. Não, Amelie demais. Por você eu viro só riso, visto as roupas mais lindas pra impressionar, ajeito o penteado em movimentos estudados, elegante assim. Não. Por você sou desgrenhada, caninos à mostra, vestido de fendas, risada rouca, um pouco amarga. Já sei: por você eu sou carnaval o ano inteiro, fadinha muito mansa ou foliã enlouquecida, mímico ou palhaço de nariz vermelho. Confetes nos cabelos. a flor nos cabelos é vaidade de que não abre mão, oferecendo o pescoço com a timidez dos ombros curvados. Sabe-se que as extremidades destoam do corpo infantil: mãos e pés grandes demais, apenas notados em tropeços e tremeliques (não raros), e é claro, as unhas redondinhas roídas até o sabugo, que desmascaram a aflição de menina, sem esquecer das pernas cruzadas crispadas em joelhos e preguiça de deixar essa vida e essa doçura.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Moça, olha só, o que eu te escrevi !


No meio do tempo, penso como seria eu sem ela, olhar o relógio, e ver que ainda posso ter mais um monte de horas, mais não o quanto quero. Falta tanto tempo, sobra tanta falta de paciência que desespera.
Quem deixou audaciosamente a distância existir?

Era como ela me fazia rir não o riso, mas era como ela me afundava as mãos e me torturava de cócegas. Nunca foram as gargalhadas era essa maneira única em que ela me tirava todo ar e me matava por um triz era como me fazia tão feliz antes e depois de um sorriso.
"Eu sei, é o amor que ninguém mais vê"