Eu tinha fome, sede, medo, frio, raiva. Eu tinha raiva. Hoje eu não queria companhia, não queria sorrisos, não queria TV ligada e música no carro. Hoje eu não queria opiniões, não queria gratidão. Hoje eu não estava pra ninguém. Hoje eu não estava para mim.
Mas eu queria minha cama, e um travesseiro abafador de gritos. Eu queria almofadas para soquear até meus braços cansarem. Hoje eu queria pular no vácuo. Queria apagar as luzes, mesmo com medo de escuro.
Eu queria esquecer, esquecer quem fui, esquecer quem sou. Esquecer o mundo, a família, os amigos, meu amor. É por isso que durmo tanto – ou hiberno como diriam os mais íntimos – Bela Adormecida sem beijos para despertar, sem príncipes e cavalos brancos. Eu deito para esquecer, para acalmar os batimentos, esfriar os neurônios. Deito para me esconder da vida, dos medos, dos seres. Deito para os minutos passarem rápido, para que eu não veja o mundo girando e eu aqui, sempre no mesmo lugar.
Deito porque sou medrosa, porque me acostumei em fugir.


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